A BUSCA PELO KAVURÉ – Y

Por Gilmar Domingos de Oliveira e membro do IHGSJornalista Mtb 29040

As ações da aviação constitucionalista durante a Guerra Civil de 1932 até hoje são motivo de polemicas entre pesquisadores e aficcionados do tema. Acusada de inércia por alguns dos líderes militares paulistas, a verdade é que mesmo diante do isolamento a que foi submetido o Estado de São Paulo, dificultando a chegada de novos aviões e munição para a esquadrilha Gaviões de Penacho, seus aviadores protagonizaram façanhas que se notabilizaram não apenas pela coragem e arrojo, mas também pelo ineditismo!

As ações da aviação constitucionalista durante a Guerra Civil de 1932 até hoje são motivo de polemicas entre pesquisadores e aficcionados do tema. Acusada de inércia por alguns dos líderes militares paulistas, a verdade é que mesmo diante do isolamento a que foi submetido o Estado de São Paulo, dificultando a chegada de novos aviões e munição para a esquadrilha Gaviões de Penacho, seus aviadores protagonizaram façanhas que se notabilizaram não apenas pela coragem e arrojo, mas também pelo ineditismo!

Uma destas ações, que infelizmente terminou de forma trágica para dois dos nossos pilotos, foi o ataque aéreo ao cruzador da Marinha de Guerra do Brasil, o Rio Grande do Sul, ocorrido entre a Praia das Pitangueiras em Guarujá, e a Ilha do Farol da Moela no dia 24 de setembro de 1932.

Desde pequeno, quando passeava na orla da praia das Pitangueiras, em Guarujá, um marco fincado no jardim me atraia a atenção. Curioso, pedia então para meu pai contar mais uma vez a história daquele curioso pedaço de mármore encimado por um capacete de aço.

Kavuré –Y

Meu pai que pertenceu a Força Pública do Estado de São Paulo, orgulhava-se de justificar a existência do pequeno obelisco, contando com detalhes a história do combate aeronaval que culminou com a queda do avião paulista e o desaparecimento dos pilotos durante o ataque aos navios da Marinha. Tudo isto bem defronte à praia onde construí meus primeiros castelos de areia…

Esta história que mais parecia uma lenda, era cheia de mistérios: o avião abatido, durante o bombardeio não tinha sido encontrado e como os corpos dos pilotos não puderam ser resgatados, construíra-se um monumento onde os nomes dos dois heróis foi gravado em bronze. No ano de 1984, com 30 anos de idade e muita pesquisa acumulada sobre o assunto, resolvi desvendar o mistério que envolvia o primeiro combate aeronaval da América do Sul: localizar os destroços do avião abatido em 1932. Afinal, já encontrara o Capitão da Marinha, que em 24/09/1932 era cabo sinaleiro do cruzador Rio Grande do Sul e dele  obtivera as coordenadas marítimas exatas do local onde ocorrera o célebre combate, e contando com o apoio de um clube de mergulhadores amadores de Santos, resolvemos lançar o Projeto de Busca do Kavuré –Y o Curtiss Falcon abatido no combate da Moela, nos últimos dias da Revolução Constitucionalista de 1932, em Santos…

Ribeiro e Bittencourt

1º capítulo sobre o tema

Santistas na Revolução de 1932: pesquisa de fontes da época traz à tona a existência de mais santistas mortos em combate no conflito constitucionalista.

Ney Paes Loureiro Malvasio
neymalvasio@gmail.com
Mestre em História Social pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/IFCS),
Membro da Associação de Combatentes
de 1932/Seção Santos.

Introdução

A revolução constitucionalista de 1932, um grave conflito que terminou com mais de 600 mortos, apenas do lado cujo foco foi o estado de São Paulo, teve em Santos, uma das cidades mais ativas durante todo o conflito. Santos manifestou-se como um grande irradiador de voluntários para combater em todos os setores do conflito armado. Entretanto, após pesquisa feita sobre as fontes primárias da revolução, pude constatar que nossa cidade teve mais mortos durante os combates que se imaginava, algo que qualquer um pode ver ao visitar o monumento santista aos seus mortos, localizado na Praça José Bonifácio, no centro de nosso município. Algo interessante de colocar, logo de início, pois durante o movimento perdemos Augusto Saturnino de Britto, engenheiro nascido em Santos, filho do grande projetista do sistema de canais existente até hoje em nossa cidade. Além dele, mais seis voluntários tiveram seu papel na revolução reconstituído pela pesquisa efetuada.

A principal fonte para o estudo que levei a cabo sobre o sacrifício idealista de santistas durante o movimento de 1932 foi Cruzes Paulistas, um livro publicado em 1936, com o intuito de angariar fundos para o mausoléu erguido na cidade de São Paulo, conhecido como o obelisco do Ibirapuera. Esse livro traz uma completa lista de todos os combatentes conhecidos tombados em combate ou em ações de apoio ao movimento de nove de julho, além disso e, não menos importante, nessa obra há uma pequena biografia de cada um desses participantes da revolução de 1932.

Os mortos não conhecidos em sua própria cidade de origem ou residência, nossa Santos litorânea, apresentarei no corpo deste artigo. É interessante notar que, nem todos nasceram aqui, mas daqui saíram para lutar, e outros, filhos desta cidade, inscreveram-se como voluntários em outros cantos de São Paulo, e mesmo em outros estados.

Santistas tombados durante os combates de 1932.

Conforme pude constatar e que já mencionei brevemente na Introdução, a verdadeira causa de não conhecermos, até então, esses valorosos santistas que devotaram suas vidas à revolução constitucionalista, reside em diversos motivos que realçarei ao tratar de cada um, pois cada combatente merece uma breve síntese biográfica.

Eu iniciarei expondo o voluntário Augusto Saturnino de Britto, nascido em Santos em 11 de junho de 1905. Era engenheiro agrônomo e ao estalar a revolução, residia em Marília, local aonde apresentou-se como voluntário, um dos motivos pelo qual os santistas que apresento neste artigo não tiveram seus nomes gravados no monumento a eles dedicado, erigido em 1956, pois recorreu-se apenas ao alistamento feito aqui e não em outros locais.
Augusto Saturnino de Britto, participou da revolução de nove de julho como cabo do 6º R.I., morrendo em combate no dia 6 de setembro, defendendo uma trincheira na Serra da Bocaina, setor de Silveiras. Depois do fim dos combates, os restos mortais de Augusto foram conduzidos para o Rio de Janeiro, onde repousa na campa de sua família.

Alípio Batista Pinto foi outro santista voluntário, nascido aqui e empregado na Companhia Santista de Tecelagem, foi incorporado ao Batalhão Operário de Santos. Em 10 de setembro, o voluntário Alípio morreu junto com aproximadamente uma dezena de outros soldados, após a explosão de uma granada que caiu certeiramente na trincheira paulista. Isso aconteceu em Morro Verde, no perigoso setor de Vila Queimada e, segundo dados obtidos no Cruzes Paulistas, Alípio foi enterrado no local, talvez resida aí o motivo de ignorarmos sua perda.

Bento de Barros foi um dos valorosos integrantes da “coluna Romão Gomes”, que operou a revolução inteira pela estratégia da guerra de movimentos, ao contrário do verificado na maioria dos outros setores de combate. Esse voluntário santista, nascido aqui em 15 de janeiro de 1905, foi incorporado ao Batalhão Barreto Leme (parte da “coluna” comandada por Romão Gomes, oficial da Força Pública de São Paulo) e fez a revolução no arriscadíssimo lugar de padioleiro. Em 5 de setembro, Bento de Barros, já na graduação de cabo e auxiliando na heróica remoção de feridos debaixo do fogo inimigo, foi colhido por um tiro na estrada entre Grama e Poços de Caldas. Após a revolução, o voluntário santista foi enterrado em Araraquara, provavelmente resida aí o motivo (tal como tenho destacado em cada voluntário morto em combate) de desconhecer-se a realmente heróica participação de Bento de Barros em sua terra natal.

Bernardo Nunes, outro voluntário civil da revolução constitucionalista. Alistou-se em Santos, presumivelmente onde nasceu, e partiu para a luta fazendo parte da “Legião Negra”, famosa por sua atuação no movimento de 1932. Foi mais um dos bravos do setor sul, onde morreu atingido por um tiro de fuzil em um dos combates travados em Apiahy. No período final de sua participação na gloriosa campanha, Bernardo Nunes encontrava-se no Batalhão Marcílio Franco.

Gastão Lopes Leal, mais um santista, nascido em 6 de dezembro de 1897. Mas que, ao contrário dos outros combatentes expostos neste artigo, não foi vitimado em uma das batalhas ocorridas em São Paulo, mas sim, ao procurar evadir-se do Rio de Janeiro para engajar-se em um dos batalhões de voluntários paulistas. Gastão Leal procurou, desde o início do movimento de nove de julho, escapar da capital federal, contudo o Rio de Janeiro encontrava-se sob severa vigilância do governo de Getúlio Vargas. Assim como fizeram outros militares e voluntários afeitos à causa da constituição, o santista juntou-se a outros voluntários imbuídos da vontade de congregar-se aos outros combatentes, o que o levou a fazer parte da tripulação de um avião da “Pan Air”, preparado para um vôo até São Paulo.

Esse avião conseguiu decolar do Rio de Janeiro em 25 de setembro, com alguns voluntários a bordo. Entretanto, o vôo terminou em tragédia, quando o aeroplano caiu sobre a atual São João de Meriti vitimando todos a bordo, incluindo o santista, Gastão Lopes Leal, formado na Universidade de Minerva, em Zurique, na Suíça e que foi sepultado no próprio Rio de Janeiro.

José Pereira nasceu em Santos, em 1906, era soldado do 6º B.C.P. da Força Pública. Essa unidade de José Pereira partiu para o setor sul de operações em 21 de julho, parte da frente que foi comandada pelo coronel Brasílio Taborda, fazendo face ao grande contingente combinado dos três estados do sul. Nosso miliciano encontrou a morte ao atravessar o rio Ribeira, durante movimentos coordenados no dia 13 de agosto. Ao que tudo indica, foi sepultado em Nuporanga.

Sérgio Antunes de Andrade, outro soldado da gloriosa Força Pública de São Paulo. Nasceu em Santos em 1911, como se vê era bastante jovem ao deflagrar-se o movimento de nove de julho de 1932. Sérgio Antunes, nessa ocasião, fazia parte da 10 companhia do 8º B.C.P., outra unidade da Força Pública que operou no setor sul. Entretanto, no dia 28 de agosto, o combatente santista foi ferido gravemente pelo fogo adversário, durante um dos combates travados numa linha próxima ao rio das Almas. Após o combate, o jovem soldado da Força Pública foi sepultado em Capão Bonito.

Monumento Filhos de Bandeirantes

Considerações Finais

Portanto, através de uma pesquisa efetuada em fontes da época da revolução de 1932, as fontes primárias como são chamadas no trabalho histórico, pude verificar que nem todos os militares e voluntários civis, nascidos em nossa terra santista eram conhecidos. Claro que, refiro-me apenas aos mortos durante o período de combates, de julho ao início de outubro de 1932, aqueles que sacrificaram suas vidas em prol da causa constitucional.

Os sete mortos restantes que deveriam ter seus nomes gravados junto aos outros combatentes tombados após o nove de julho.

Fontes de Consulta:

ANDRADE, Horácio de; MIRANDA, A. Guanabara de Arruda; SOARES, Oswaldo Bretas Soares. Cruzes Paulistas. São Paulo: Gráfica da Revista dos Tribunais, 1936.

DONATO, Hernâni. A Revolução de 32. São Paulo: Abril/Círculo do Livro, 1982.SANTOS, Francisco Martins dos. História de Santos. 2ª ed. São Vicente: Caudex, 1986. v. II.